Ode à Mentira
Crueldades, prisões, perseguições, injustiças,
como sereis cruéis, como sereis injustas?
Quem torturais, quem perseguis,
quem esmagais vilmente em ferros que inventais,
apenas sendo vosso gemeria as dores
que ansiosamente ao vosso medo lembram
e ao vosso coração cardíaco constrangem.
Quem de vós morre, quem de por vós a vida
lhe vai sendo sugada a cada canto
dos gestos e palavras, nas esquinas
das ruas e dos montes e dos mares
da terra que marcais, matriculais, comprais,
vendeis, hipotecais, regais a sangue,
esses e os outros, que, de olhar à escuta
e de sorriso amargurado à beira de saber-vos,
vos contemplam como coisas óbvias,
fatais a vós que não a quem matais,
esses e os outros todos... - como sereis cruéis,
como sereis injustas, como sereis tão falsas?
Ferocidade, falsidade, injúria
são tudo quanto tendes, porque ainda é nosso
o coração que apavorado em vós soluça
a raiva ansiosa de esmagar as pedras
dessa encosta abrupta que desceis.
Ao fundo, a vida vos espera. Descereis ao fundo.
Hoje, amanhã, há séculos, daqui a séculos?
Descereis, descereis sempre, descereis.
(Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'
sábado, 22 de novembro de 2014
ROMANCE INGÉNUO DE DUAS LINHAS PARALELAS
Duas linhas paralelas,
muito paralelamente,
iam passando entre estrelas
fazendo o que estava escrito:
caminhando eternamente
de infinito a infinito.
Seguiam-se passo a passo
exactas e sempre a par
pois só num ponto do espaço,
que ninguém sabe onde é,
se podiam encontrar,
falar e tomar café.
Mas farta de andar sozinha,
uma delas certo dia
voltou-se para a outra linha,
sorriu-lhe e disse-lhe assim:
«Deixa lá a geometria
e anda aqui para o pé de mim...»
Diz a outra: «Nem pensar!
Mas que falta de respeito!
Se quisermos lá chegar,
temos de ir devagarinho,
andando sempre a direito
cada qual no seu caminho!»
Não se dando por achada
fica na sua a primeira
e sorrindo amalandrada,
pela calada, sem um grito,
deita a mãozinha matreira,
puxa para si o infinito.
E com ele ali à frente,
as duas a murmurar
olharam-se docemente,
e sem fazerem perguntas,
puseram-se a namorar,
seguiram as duas juntas.
Assim, nestas poucas linhas
fica uma estória banal
com linhas e entrelinhas
e uma moral convergente:
o infinito afinal
fica aqui ao pé da gente.
In “Eu Sou Português Aqui”
Edições Ulmeiro
José Fanha
terça-feira, 18 de novembro de 2014
domingo, 16 de novembro de 2014
Hino à TolerânciaJá será grande a tua obra se tiveres conseguido levar a tolerância ao espírito dos que vivem em volta; tolerância que não seja feita de indiferença, da cinzenta igualdade que o mundo apresenta aos olhos que não vêem e às mãos que não agem; tolerância que, afirmando o que pensa, ainda nas horas mais perigosas, se coíba de eliminar o adversário e tenha sempre presente a diferença das almas e dos hábitos; dar-lhe-ão, se quiserem, o tom da ironia, para si próprios, para os outros; mas não hão-de cair no cepticismo e no cómodo sorriso superior; quando chegar o proceder, saberão o gosto da energia e das firmes atitudes. Mais a hão-de ter como vencedores do que como vencidos; a tolerância em face do que esmaga não anda longe do temor; então, antes os quero violentos que cobardes.
Mas tu mesmo, Marcos, com que direito és tolerante? Acaso te julgas possuidor da verdade? Em que trono te sentaram para que assim olhes de cima o resto dos humanos e todo o mundo em redor? Por que tão cedo te separas de compreender e de amar? Tens a pena do rico para o pobre, dás-lhe a esmola de lhe não fazer mal; baixaste a suportar o que é divino como tu; e queres que te vejamos superior porque já te não deixas irritar por gestos ou palavras dos irmãos. Mais alto te pretendo e mais humilde; à tolerância que envergonha substitui o cálido interesse pedagógico, o gosto fraternal de aprender e de guiar; não levantes barreiras, mas abate-as; se consideras pior o caminho dos outros vai junto deles, aconselha-os e guia-os; não os deixes errar só porque os dominarias, se quisesses; transforma em forte, viva chama o que a pouco e pouco se dirige a não ser mais que um gelado desdém.
Agostinho da Silva, in 'Considerações'
Mas tu mesmo, Marcos, com que direito és tolerante? Acaso te julgas possuidor da verdade? Em que trono te sentaram para que assim olhes de cima o resto dos humanos e todo o mundo em redor? Por que tão cedo te separas de compreender e de amar? Tens a pena do rico para o pobre, dás-lhe a esmola de lhe não fazer mal; baixaste a suportar o que é divino como tu; e queres que te vejamos superior porque já te não deixas irritar por gestos ou palavras dos irmãos. Mais alto te pretendo e mais humilde; à tolerância que envergonha substitui o cálido interesse pedagógico, o gosto fraternal de aprender e de guiar; não levantes barreiras, mas abate-as; se consideras pior o caminho dos outros vai junto deles, aconselha-os e guia-os; não os deixes errar só porque os dominarias, se quisesses; transforma em forte, viva chama o que a pouco e pouco se dirige a não ser mais que um gelado desdém.
Agostinho da Silva, in 'Considerações'
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
CONTO
CARROSSEL
DE PAIXÕES
Com o queixo assente nas palmas das mãos e os
cotovelos apoiados na mesa, Joselito é a
imagem do pensador profundo. Ou de um homem angustiado, uma situação não anula a outra. Entretanto no
bar, Aniceto estranha e interroga-se acerca do significado que pode ter a
posição do amigo. Sobressalta-o com uma
palmada nas costas e vai direito ao assunto.
Que
se passa, rapaz, pareces preocupado.
E
estou.
Problemas?
O
problema de ter de tomar una decisão difícl.
Para
já, vamos tomar um como.
Não
bebo alcoól.
Desde
quando?
Desde
ontem.
É
de homem. Que tomas então?
Pode
ser uma caipirinha.
Bem
pensado. Faço-te companhia.
Aniceto
pede as bebidas ao empregado do bar e apressa-se em saber que diabo preocupa o amigo.
Se
não quizeres conversa, calo-me já. Mas, enfim,talvez eu possa ajudar-te na decisão
que tenhas que tomar.
Não
podes. Terei de ser eu a optar entre a Matilde, a Luizinha e a Graça. Elas conheceram-se, estás a ver o que aconteceu?
Chegaram à fala, treco-lareco, uma a uma identificaram-me como o suposto futuro
marido.
As
três?
As
três. E encostaram-me à parede. Tenho de optar por uma só.
Manias
de mulheres. E qualquer delas está na disposição de ficar contigo, desde que em
exclusivo?
Todas.
E não é extraordinário?
Vê
o caso do Jacques, um tipo com aquele ar de galã de telenovela e ninguém lhe
pega.
Não
me fales no Jaques.
Porquê?
É o exemplo do sedutor perfeito mas não há mulher que se apaixone por ele. E
eu, magricela, meio vesgo, gago, e sou disputado por três mulheres de arregalar
os olhos. Faz sentido?
Não
muito
Quem
dera ao Jaques ver-se na minha situação. Que, aliás, é bem complicada.
Mas
complicada porquê, pá? Haverá uma que te agrade mais que as outras duas.
Tu
não entendes, Aniceto. O problema não é escolher uma, é perder as outra duas.
Cada uma delas tem os seus especiais encantos. Como poderei prescindir da voz
doce da Matilde? Ou da sensualidade perturbadora da Graça? Ou do humor e
ternura da Luizinha? São três amores e, optando, fico sempre a perder.
Concordo.
Perdes dois a um.
Imagina
a felicidade do Jaques se alguma delas o quizesse. E eu neste drama. Quem dera
que os atractivos de todas elas estivessem reunidos numa só. Seria fácil e perfeita a escolha.
Recosta-se,
eleva o olhar para o teto, bruscamente
debruça-se sobre a mesa, segura os pulsos do Aniceto e segreda com a voz
enrouquecida:
Só há uma, bem, bom amigo,igual à soma daquelas
três queridas.
Vá
lá, descobriste uma raridade. E quem é?
Posso
dizer, Aniceto?
Claro,
é alguém que eu conheça?
Perfeitamente.
Desculpa dizer-te, Aniceto, mas a única mulher que me seduz na totalidade é a
tua namorada.
A
Carla?
A
Carla. Sempre. Desde que tiveste a maldade de me a apresentar. Perdoa , meu
amigo, mas ninguém é dono e senhor dos
seus sentimentos. E confesso que te envejo por teres a Carla.
O
rosto de Aniceto não revela se ficou ofendido ou lisonjeado com a confissão
inesperada. Silencioso, passa as mãos repetidamente pela nuca e, por fim, diz:
Acontece
, Juselino, que a Carla já não é minha namorada.
Emoções
desencontradas desenham no rosto do outro. Primeiro de surpresa, depois a
animação de uma ideia que nunca lhe ocorrera:
Sendo
assim....quer dizer que eu posso agora ter esperança?
Aniceto
torna a passear as mãos pela nuca, bebe um trago e diz num murmurio:
Não
creio, Juselito. Ela trocou-me pelo Jaques.
Casais de mem martins
10/11/14
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
ESTÓRIA DE INFÂNCIA
A noite estava demasiado quente, tal como tinha
estado já o dia, como natural era naquela época do ano. Estávamos em Junho, mês
dos santos populares, altura do ano
propícia a festas e bailes ao ar livre, bailes de adiafa pelo remate de um trabalho, bailes de mastro por promessas
religiosas ou mesmo para comemoração dos
próprios santos.
Aquele era um baile de mastro por promessa religiosa, um
mastro enorme com saia grande e bem efeitado com flores e muitos bolos.
Estávamos na Quinta Nova, uma quinta não muito grande, muito
bem tratada e com um lindo jardim repleto de flores, de várias cores e qualidades, destacando--se um lindo roseiral, no ar
pairava um aroma inconfundível. Entre o jardim e o monte, um rua larga
empedrada. O monte uma casa grande, bastante comprida de um só piso, como eram todas em seu redor, caiada de
branco com barras azuis. Ao meio um
portão largo em ferro, a antrada principal.
O mastro estava colocado no centro da rua empedrada,
empedrado este que naquela zona estava coberto de montrastos, fetos, alecrim e
rosmaninho, sobre os quiais era praticado o baile, ao som da música da
concertina.
Os donos da quinta eram pessoas de bem e muito conceituadas
naquele meio rural, tal como bem conceituados eram os quinteiros, os promotores
daquele mastro “ festa de arromba “ , onde por todo o lado haviam pratos com
queijo, choriço, presunto, pão, bolos e bebidas.
Toda a gente das redondezas deve ter ido aquele baile, era
gente por todo o lado, no local do baile quase não era possível passar, devido
ao aglomerado de gente.
Eu e os meus amigos de
oito, nove e dez anos, e outros que se
juntaram a nós, além dos bolos e
pirolitos, queriamos era brincadeira. Com frequência um ou outro ia perguntar as horas e saber dos
familiares, voltando novamente para a brincadeira.
Chegou a hora de eu ir ver da minha mãe, com quem tinha ido e saber as horas, e quando
nos iamos embora.
Quando eu andava no meio daquele gentio a tentar localizar a
minha mãe, vi um meu afastado parente, perguntei-lhe as horas e se tinha visto
a prima, a minha mãe, ele respondeu-me: “ são onze, a tua mãe andou à tua busca
e não te encontrou, pensou que tivesses ido com algum vizinho e já se foi
embora”. Eu admirei-me mas como dei mais uma volta e não a vi, abalei sózinho.
Estava um luar espectacular, logo que me afastei da zona do baile, só a sombra
das árvores, o cantar dos ralos ou o ladrar do cães ao longe me faziam
companhia.
Eu tinha forsosamente que passar por um local, onde diziam que apareciam medos,
contavam-se as estórias mais mirabulantes, era considerado um local medonho,
onde pouca gente passava só, a altas horas da noite. Quanto mais me aproximava
daquele lugar, mais mal me sentia, tinha frio, tinha calor, tinha suor, tinha
não seio o quê, provavelmente aquilo a
que se chama medo. Entrei naquela área chamada paul, uma estrada de maquedame, ladeadas
de frondosos eucaliptos, com tanta ramegem que nem uma luzerna do brilhante
luar ali penetrava. Quando já caminhava na ponte, sobre o ribeiro ouvia correr
a água do meu lado esquerdo, não a via mas sabia que ela lá estava, enchendo um
lavadouro enorme com dez ou doze pedras, onde as mulheres iam lavar a roupa, do
meu lado direito um enormissímo canavial,
neste preciso momento e rodeado por este cenário, no cimo dos eucaliptos
uma coruja, considerada por muitos “ ave
do agoiro “ começa a piar, aquele pio que parece choro, tremi que “ nem varas
verdes “, mas lá passei, já estava proximo de casa e foi numa só corrida até lá
chegar.
O avô ainda estava levantado, como era seu hábito, quando
alguém estava de noite fora de casa. Pouquissímo tempo depois chegou a mãe,
tinha visto o primo e ele dissera-lhe que eu tinha dito que me vinha embora,
cansada de correr para me apanhar, não me apanhou ela, mas apanhei eu um grande
ralhete por ter acreditado na conversa daquele “fala barato”, uma pessoa que a especialidade dele, como vim
a saber mais tarde, quando o conheci melhor, era inventar tretas, para enganar quem nele acreditasse, criando
assim intrigas, sem razão de ser, sendo para ele uma vitória, de que se
vangloriava, mas algumas vezes também levou bons enxertos de porrada, não foi o meu caso por ser um garoto, mas
vontade não me faltou.
Casais de Mem Martins 07/11/14 Francisco Parreira
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
Comunicar é preciso: APROVEITA O CHEIRO DESTAS FLORES.
Comunicar é preciso: APROVEITA O CHEIRO DESTAS FLORES.: COMO DIZIA NELSON CAVAQUINHO Sei que amanhã Quando eu morrer Os meus amigos vão dizer Que eu tinha um bom coração Alguns até hão d...
Subscrever:
Mensagens (Atom)